quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Já não sou como outrora

Outrora me encontrei em tormentos por tua causa. Me vias e viravas o rosto, me olhavas com desprezo tal que de angústia me escondia na mais profunda cova da inércia e me deixava levar pela tristeza que em mim invadia.
Ainda assim pensava em você.
De longe, avistava uma luz fraca que, devagar, diariamente vinha e me abrasava de tamanho reconhecimento pela sua extrema vilania. A prova do choro já não me delatava mais.
E eu de vez em quando lembrava de você.
Algo novo preencheu o vazio, o orgulho que me roubastes voltara mais forte do que nunca. O rubor da saúde já era convidado principal das minhas conversas diárias... eu dei lugar ao sorriso.
E já não tinha mais lugar para você!


Vanêssa Aulette

domingo, 11 de julho de 2010

Metamorfose

Sentada na varanda folheando meus álbuns, recordava-me da época em que tudo era mais fácil. A chuva começando a cair me trazia o cheiro de terra molhada, terra essa que costumava ser meu passatempo preferido... costumava...
As lembranças ainda voltando me faziam rir. Sim, rir como uma criança, como na época em que assistia programas infantis e desenhos animados. Me saboreava enquanto, aos poucos, as músicas soavam aos meus ouvidos mais uma vez... sim, eu podia ouvi-las.
Lembrava-me também da inocência, do medo de andar sozinha, do quanto eu me sentia pequena e frágil entre a multidão, das preocupações que, hoje, não se comparam às atuais. Lembrava-me da insegurança em conversar com meus pais... embora isso não tenha mudado muito...
Traumas... alguns são bem vagos. Nem sei, na verdade, até que ponto deixaram de ser reais para ser fruto da minha imaginação. Outros, estão bem claros em minha mente... ainda posso ouvir os gritos! Mas isso é passado... espero
Ainda olhando as fotos, percebo nitidamente a mudança física, mudança rápida, essa, que me assustou. Pêlos? Para mim isso era coisa pra macacos... seios? Só na mamãe, para amamentar... sangue? acho que foi o que mais me perturbou... traz desconforto, insegurança, mal humor... e me dá vontade de chorar... (como se eu precisasse de mais isso...)
Ainda em meus devaneios, noto uma garotinha brincando de boneca do outro lado da rua. Sim, tive muitas... aliás, ainda tenho, a diferença é que hoje elas enfeitam minhas prateleiras e retêm poeira. Por outro lado, os meus antigos ursos de pelúcia, que ficavam de lado, hoje em dia me fazem companhia nas noites frias... não, não é infantilidade, não, é um sentimento novo que a maturidade me trouxe... a carência. Já não sinto os garotos como irmãos, companheiros de pega-pega... agora eu descobri o amor, que me traz uma dor bem mais penetrante do que uma simples queda do muro de uma criança serelepe.
A chuva ainda caía e somada ao céu cinzento uma ídéia me trazia: eu não sou como costumava ser, minha vida não é como costumava ser e nada mais é como costumava ser...


Vanêssa Aulette

sexta-feira, 25 de junho de 2010

A redenção

Por mais que eu corra, por mais que eu tente fugir, você me alcança de novo e de novo. Apago as luzes na esperança de passar despercebida e ainda assim você sente meu cheiro. Procuro me disfarçar, ainda assim você me encontra. Sim, você sempre sabe onde estou. Procuro chorar em silêncio, ainda assim você me ouve. Tropeço, caio e procuro ficar ali, inerte, e ainda assim você me levanta.
Ainda que eu deseje mergulhar em um mar de dúvidas você simplesmente me acha e me traz à tona. Por mais que a tristeza bata em minha porta você está sempre lá para afastá-la com um sorriso. Por mais que eu tente me rebelar contra os céus você insiste em disseminar a paz. E ainda que eu queira sentir o perigo, você insiste em me proteger. Quando consigo achar o fundo do poço você me resgata e me carrega nos braços.
Quando, enfim, encontro uma forma de me livrar de você, descubro que isso, definitivamente, acabaria comigo...
Eu me rendo a ti


Vanêssa Aulette

sábado, 19 de junho de 2010

Eu... ele... nós...

Eu não o via, eu não o enxergava...
Eu não sabia até onde ele iria, não tinha o conhecimento dos seus poderes,
Eu não esperava por isso, eu não esperava por ele,
Eu não imaginei que trilharia este caminho, que ele me guiaria para um final feliz,
Eu não me arrependo do que fiz, não poderia deixá-lo sozinho
Eu não poderia me deixar sozinha...

Ele veio de repente, de mansinho...
Ele me cuidou, me tratou com carinho,
Ele soube lidar, soube esperar, me fez enxergar,
Ele é como o arco-íris do inverno que achei que nunca veria,
Ele me acorda à noite, me deseja boa dia,
Ele torna meu dia um bom dia...

Nós aprendemos juntos...
Nós, apesar da distancia, estamos mais perto do que imaginam,
Nós estamos deixando de ser apenas 'eu' e 'ele' para sermos 'nós',
Nós daremos cada passo sem pressa, com cuidado,
Nós demos o primeiro passo...
Nós... nós...


Vanêssa Aulette

sexta-feira, 28 de maio de 2010

O eco

Corria no escuro desesperada, a esmo, sem esperança alguma até que, de angústia, resolvi gritar e algo novo aconteceu: um outro grito me respondeu. Perguntei onde ele estava. Ele, tão desesperado quanto eu, também perguntara o mesmo. Minha resposta fe-lo responder também mas parecia ainda muito vago, estávamos no escuro.
Perguntei-lhe o que o fez parar ali. Ele respondeu-me com a mesma pergunta. Por um momento pensei em lembra-lhe que eu tinha perguntado primeiro mas deixei passar, não queria me estranhar com a única voz q me fazia contato depois de tanto tempo. Expliquei-lhe cada detalhe sórdido, que ao ser lembrado remexia a ferida em meu peito. Meu companheiro de conversa o mesmo respondia, quase que imediatamente. Fiquei feliz em saber que a voz poderia me compreender desse modo, não era a única que sofria assim.
Já não corria mais, sentei-me onde pude me achegar tentando me manter distraída com a situação. A cada minuto de conversa me sentia cada vez mais intimamente ligada à voz, tínhamos muito em comum, pra não dizer tudo. No entanto, uma coisa me deixava irritada: a voz em tudo me remendava, como que zombando de mim, mas preferi pensar que era apenas coincidência. A essa altura não havíamos nos apresentado formalmente. Perguntei-lhe o seu nome e, por coincidencia, ela também perguntou o mesmo.
Ao tempo que eu respondia, ela também se apresentava com o mesmo nome, o mesmo sobrenome. Como que sendo atingida bruscamente no rosto, caí em mim. Eu conversava, na verdade, com o eco da minha voz. A descoberta foi o bastante para rasgar de vez a ferida em meu peito. Percebi que eu estava presa, solitária e angustiada em um buraco cuja existência eu sabia, porém não fazia ideia de suas dimensões...



Vanêssa Aulette

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Primeiro beijo

O amor é um sentimento tão profundo que nem um verbete de dicionário seria capaz de explicá-lo. Amor à primeira vista acredito que não existe. Para se amar uma pessoa você tem que conhecê-la melhor, do contrário, é paixão. Não se chega ao amor senão pela amizade...
Se me perguntassem o que sela o amor eu diria: O beijo. O beijo da mãe no seu filho, o beijo de amigos que se reencontram, mas nada se compara ao primeiro beijo louco e apaixonado de um amor inocente e juvenil.
Não se sabe o que é 'borboletas no estômago' até provar o primeiro beijo. O coração dispara, é como levar um choque, só que é bom. Sensação única e mágica. O primeiro de dois jovens que aprendem juntos, que compartilham da mesma sensação.
Pode ser selinho, pode ser pra valer, não importa. A essência da ternura não muda.
Como eu já disse, nada se compara ao primeiro beijo louco e apaixonado. É uma porta que se abre para a vida, a primeira de muitas outras que se abrirão...



Vanêssa Aulette

Lar, doce lar

Foi como despertar de um pesadelo. Com o coração cheio de amor me dirigi ao meu verdadeiro lar, contando os segundos para senti-los de perto. Chegada a hora, foi como recordar aos poucos do íntimo do meu lar, vendo cada rosto... Aos poucos o sono ficando profundo e mais profundo ainda meu sonho... rostos conhecidos... abraços!
Entrei em êxtase ao ver tantos deles ao mesmo tempo. Como uma criança curiosa em lugar estranho, fitei cada rosto com profunda satisfação, procurando entre a multidão os meus rostos preferidos. A única diferença era que em vez de estranho, o lugar me era muito familiar, era meu verdadeiro lar...
A cada rosto querido encontrado meu coração se enchia de alegria, porém, ainda procurava esperançosa o rosto que eu mais queria. De repente, não mais que de repente, encontrei-o me fitando na esperança de eu notá-lo. Sim, estou aqui te vendo! Como desejei correr para seus braços... era só ter um pouco de paciência...
Entre a multidão de rostos conhecidos, os vi! Queridos rostos sorrindo para mim e braços me envolvendo num abraço apertado, abraços urgentes, abraços de amor. Senti-me muito feliz, porém, não reencontrei o rosto querido que a pouco via... Andei, procurei... não achei! Não me senti mais triste, porém, menos feliz...
À procura de outros rostos achei o de minha mocidade... envolvi-o num abraço apertado, demorado, abraço de verdade, com o corpo. Paixão? Não... eu diria: carinho profundo por um rosto que muito me marcou, um rosto infantil, um rosto de pirralho...
Apesar dos pesares, beijei, abracei, beijei, abracei, abracei, abracei... abracei demais. Oh, abraço, como alivias minha'lma! Aos poucos os rostos queridos foram ficando escassos, o sonho foi acabando... despedidas, abraços, saudade... apartava-me do meu lar...
Foi como despertar de um sonho bom...



Vanêssa Aulette