terça-feira, 9 de novembro de 2010

Toque de recolher

Sentada na praça vejo a chuva cair por sobre minha pele, mas já não a sinto. Ela sem mistura com a água que brota dos meus olhos incessantemente. Já não sei a diferença entre lágrimas e chuva.
Ouço ao longe uma sinfonia melancólica a tocar. Talvez seja um disciplinado aprendiz de piano angustiado pela palmatória que levara mais cedo... ou talvez essa melodia seja fruto da minha mente e apenas reflita o estado sorumbático no qual me encontro. Já não sei distinguir fantasia de realidade. Já não sei em que ponto deixo de ser eu para ser uma máquina programada, aparentemente sem coração. Mas se até máquinas precisam de um motivo para existir, porque comigo seria diferente?
Não tenho eu mais liberdade do que um prisioneiro perpétuo. Procuro à minha volta algo em que eu possa me agarrar, algo que possa conter a chuva que brota dos meus olhos, mas não tenho tempo para pensar. Soa o toque de recolher, tenho que voltar logo para a minha prisão de sorrisos forçados e de algemas invisíveis...


Vanêssa Aulette

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Lembranças


Impressiono-me com a imprevisibilidade do tempo
Ao olhar para trás e ver o quanto tudo era tão diferente
Simplesmente costumávamos andar de mãos dadas contra o vento
Enquanto trocávamos palavras de afeto a todo momento
Quando sentados sob a luz do luar
Costumávamos fazer planos futuros
Enquanto meus olhos buscavam e fugiam do teu olhar
E vislumbrava-mos as estrelas que se destacavam no escuro
Conseguia te ver em todo lugar
Ao longo do dia via muitos de você passarem
À noite fechava os olhos para sonhar contigo
Sentia nas mãos teu belo rosto, sentia alívio
Pois o medo que eu tinha de perder-te chegava sorrateiro nos solitários momentos
Pois em ti encontrava refúgio, abrigo
Hoje olho para o caminho pelo qual tivemos que seguir
Sinto um aperto no coração quando lembro que você não estará mais ali
Me esperando para segurar minhas mãos
Me olhar nos olhos e me fazer sorrir...
Pois o destino, com tamanha vilania,
Te levou assim como você veio,
Mas deixou lembranças de uma vida
Que para sempre serão lembradas, jamais esquecidas...

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A canção


Chegada a hora tão esperada
Seguro com força suas mãos suadas
Como quem procura um chão,
E ao mesmo tempo serve de morada, inspiração.
Te sinto ofegar de leve a respiração
Medir as palavras em matéria de efeito
Como que expulsando mentalmente os defeitos
A fim de tornar o pedido uma canção
E apesar de ser, para quem o ouve,
Tão claro quanto um lago no verão,
Dissimulo em minha mente uma confusão
Tão somente para a canção ouvir novamente
E recordar sua voz mesmo após teu partir
Por isso com ânimo tu ouves minha confirmação
Tendo a lua a sorrir, maravilhada
De ter se consumado toda a inquietação
Sendo testemunha, o cintilante astro,
Do toque, do abraço, do beijo, da canção...

Já não sou como outrora

Outrora me encontrei em tormentos por tua causa. Me vias e viravas o rosto, me olhavas com desprezo tal que de angústia me escondia na mais profunda cova da inércia e me deixava levar pela tristeza que em mim invadia.
Ainda assim pensava em você.
De longe, avistava uma luz fraca que, devagar, diariamente vinha e me abrasava de tamanho reconhecimento pela sua extrema vilania. A prova do choro já não me delatava mais.
E eu de vez em quando lembrava de você.
Algo novo preencheu o vazio, o orgulho que me roubastes voltara mais forte do que nunca. O rubor da saúde já era convidado principal das minhas conversas diárias... eu dei lugar ao sorriso.
E já não tinha mais lugar para você!


Vanêssa Aulette

domingo, 11 de julho de 2010

Metamorfose

Sentada na varanda folheando meus álbuns, recordava-me da época em que tudo era mais fácil. A chuva começando a cair me trazia o cheiro de terra molhada, terra essa que costumava ser meu passatempo preferido... costumava...
As lembranças ainda voltando me faziam rir. Sim, rir como uma criança, como na época em que assistia programas infantis e desenhos animados. Me saboreava enquanto, aos poucos, as músicas soavam aos meus ouvidos mais uma vez... sim, eu podia ouvi-las.
Lembrava-me também da inocência, do medo de andar sozinha, do quanto eu me sentia pequena e frágil entre a multidão, das preocupações que, hoje, não se comparam às atuais. Lembrava-me da insegurança em conversar com meus pais... embora isso não tenha mudado muito...
Traumas... alguns são bem vagos. Nem sei, na verdade, até que ponto deixaram de ser reais para ser fruto da minha imaginação. Outros, estão bem claros em minha mente... ainda posso ouvir os gritos! Mas isso é passado... espero
Ainda olhando as fotos, percebo nitidamente a mudança física, mudança rápida, essa, que me assustou. Pêlos? Para mim isso era coisa pra macacos... seios? Só na mamãe, para amamentar... sangue? acho que foi o que mais me perturbou... traz desconforto, insegurança, mal humor... e me dá vontade de chorar... (como se eu precisasse de mais isso...)
Ainda em meus devaneios, noto uma garotinha brincando de boneca do outro lado da rua. Sim, tive muitas... aliás, ainda tenho, a diferença é que hoje elas enfeitam minhas prateleiras e retêm poeira. Por outro lado, os meus antigos ursos de pelúcia, que ficavam de lado, hoje em dia me fazem companhia nas noites frias... não, não é infantilidade, não, é um sentimento novo que a maturidade me trouxe... a carência. Já não sinto os garotos como irmãos, companheiros de pega-pega... agora eu descobri o amor, que me traz uma dor bem mais penetrante do que uma simples queda do muro de uma criança serelepe.
A chuva ainda caía e somada ao céu cinzento uma ídéia me trazia: eu não sou como costumava ser, minha vida não é como costumava ser e nada mais é como costumava ser...


Vanêssa Aulette

sexta-feira, 25 de junho de 2010

A redenção

Por mais que eu corra, por mais que eu tente fugir, você me alcança de novo e de novo. Apago as luzes na esperança de passar despercebida e ainda assim você sente meu cheiro. Procuro me disfarçar, ainda assim você me encontra. Sim, você sempre sabe onde estou. Procuro chorar em silêncio, ainda assim você me ouve. Tropeço, caio e procuro ficar ali, inerte, e ainda assim você me levanta.
Ainda que eu deseje mergulhar em um mar de dúvidas você simplesmente me acha e me traz à tona. Por mais que a tristeza bata em minha porta você está sempre lá para afastá-la com um sorriso. Por mais que eu tente me rebelar contra os céus você insiste em disseminar a paz. E ainda que eu queira sentir o perigo, você insiste em me proteger. Quando consigo achar o fundo do poço você me resgata e me carrega nos braços.
Quando, enfim, encontro uma forma de me livrar de você, descubro que isso, definitivamente, acabaria comigo...
Eu me rendo a ti


Vanêssa Aulette

sábado, 19 de junho de 2010

Eu... ele... nós...

Eu não o via, eu não o enxergava...
Eu não sabia até onde ele iria, não tinha o conhecimento dos seus poderes,
Eu não esperava por isso, eu não esperava por ele,
Eu não imaginei que trilharia este caminho, que ele me guiaria para um final feliz,
Eu não me arrependo do que fiz, não poderia deixá-lo sozinho
Eu não poderia me deixar sozinha...

Ele veio de repente, de mansinho...
Ele me cuidou, me tratou com carinho,
Ele soube lidar, soube esperar, me fez enxergar,
Ele é como o arco-íris do inverno que achei que nunca veria,
Ele me acorda à noite, me deseja boa dia,
Ele torna meu dia um bom dia...

Nós aprendemos juntos...
Nós, apesar da distancia, estamos mais perto do que imaginam,
Nós estamos deixando de ser apenas 'eu' e 'ele' para sermos 'nós',
Nós daremos cada passo sem pressa, com cuidado,
Nós demos o primeiro passo...
Nós... nós...


Vanêssa Aulette