sexta-feira, 1 de junho de 2012

As Rodinhas.

Eu não pedi por isso. Mas de repente eu me vi em um velocípede. Teus olhos atentos me seguiam enquanto minhas pernas gordas e fracas experimentavam aquela nova experiência. Teus lábios sorriam com meu movimento descompassado e minha expressão triunfante ante cada conquista. Me davas banho, escolhias minhas roupas, meu penteado, meus lanches, meus desenhos animados, e eu tomava tuas escolhas como verdades porque nada sabia da vida.

Até que um dia me viste uma criança um pouco maior, uma criança que já não cabia no velocípede, então compraste uma bicicleta rosa e todos os apetrechos que me mantessem o mais segura possível. Senti medo, mas as rodinhas estavam lá, assim como tuas mãos cuidadosas que acompanhavam cada pedalada. Vez ou outra eu encontrava alguma pedra ou um buraco no caminho e caia, chorava, mas continuava. Sempre me consideraste teimosa e curiosa, mas talvez a minha vontade de ver as engrenagens de perto fosse maior do que o teu temor de eu me ferir.
Aos poucos o medo de andar sem tuas mãos foi sendo substituído pelo desejo de te orgulhar andando sozinha. E eu prossegui, às vezes por caminhos tortuosos. Lavava a louça e deixava a pia talvez mais limpa do que os pratos. Em certos momentos tuas mãos me aplaudiam, noutros eu via um olhar pensativo... achavas que eu corria demais.
Até que um dia eu me senti segura para tirar as rodinhas. Aprendi a tomar banho sozinha, escolher minhas roupas, fazer meu penteado, preparar meus lanches e curtir minhas músicas. Eu me vi pronta pra correr riscos, pra percorrer caminhos mais difíceis e levantar, caso caísse. As feridas de outrora me deixara mais resistente. No entanto, você não estava pronta.

Você não está pronta pra me tirar as rodinhas. Nunca esteve.
Você acha que vai ter aquela criança pra sempre, mas não vai.
É muito conveniente da sua parte me ter sempre em suas mãos, como um fantoche. Você me olha e ainda vê aquela menina de pernas gordas e fracas que não sabe amarrar o próprio cadarço. No meio do caminho eu mudei, e você não se deu conta. Cresci, mas minhas convicções não se tornaram as tuas. Cada passo que dou por caminhos não trilhados previamente por ti são para ti como um pisar despreocupado em um lago fundo. Como se eu estivesse constantemente a me jogar de um precipício. Você esqueceu de como é tirar as rodas. De como é sofrer as consequências boas ou ruins das próprias escolhas. Do sabor que tem as próprias escolhas.
E cada vez mais você me sufoca.
Me afasta.
E espera encontrar sempre o sorriso serelepe da criança ingênua, despreocupada e carente de cuidados que eu fui. Você tenta me assustar com o mundo, me fazer voltar ao berço como se o único lugar seguro fosse embaixo de tuas asas.
Isso é mentira. Isso é covardia.

Não sou uma máquina que se pode ajustar, um robozinho, para que com apenas um toque minhas emoções se convencionem às tuas . Hoje, não tomo mais suas escolhas como verdade. Minhas verdades têm alicerces mais seguros, mais eternos. Fundamentos maiores do que mim e ti.
Eu quero correr de bicicleta e sentir o vento no rosto. Eu quero te envaidecer sendo o que sou, não o que você espera que eu seja, sempre.
Não vou abrir mão de buscar minha felicidade só pra te orgulhar. Troféus são objetos solitários que não se alegram com as próprias vitórias.
E eu não quero ser um troféu que você coleciona.
Te diria tudo isso se soubesses ouvir, mas enquanto meu espírito se turba de impotência, o teu se preocupa em coligir rodinhas.

Cansei.
Tirei as rodinhas.



Vanêssa Aulette.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Nó Na Garganta

Os ponteiros marcam 11h20, e eu sei que ele estará lá a qualquer momento. Sinto meu coração pulsar enquanto me dirijo ao seu caminho rotineiro, sua rota conhecida, em uma tentativa de cruzar nossas direções.

O tempo passa... são 11h30 e eu me refugio na livraria ao lado, pra disfarçar meu intento. Meus olhos correm pelos livros, em uma mistura de disfarce e interesse... "Oh, um livro na promoção..." e lá vou eu ao caixa pagar um clássico de Aluísio de Azevedo. Olho pra o relógio, e já são 12h40... E ele não me apareceu... "Será que me distraí demais com os livros? Será que ele seguiu outra rota?"

Prossigo, ainda ansiosa, à loja de música, onde nos esbarramos da última vez. Será que eu teria a mesma sorte? Mas não... "Um raio não bate duas vezes no mesmo lugar", e esse não bateu também...

Começo a me turbar, procurando, em cada rosto que me passa, o único rosto que me tiraria de toda aquela angústia. Mas ele não vem. Cada rosto que passa só serve pra fazer volume na memória, não no coração. Esqueço-me do acaso que me fez parar ali e apresso o passo, andando a esmo, como que a intensidade do querer fosse direta e suficientemente proporcional à concretização do anseio de encontrá-lo...

Dirijo-me à parada de ônibus, um lugar cuja importância só nós sabemos. Reparo, ao longe, em um rosto moreno cansado, equilibrado pelo queixo com uma das mãos. Meu coração bate a galope ao pensar na possibilidade... Mas não, não era o meu rosto moreno que eu vi, era qualquer outro rosto, um rosto que deveria ser amado por um alguém... Mas não por mim. Era uma miragem.

"Quem sabe ele não estivesse com fome?" E lá vou eu, em meio às mesas, à procura dele. Sinto cheiro de pastel, mas cadê o cheiro dele? Olho para o relógio (mais uma vez), são 13h30.
E cai a ficha. Ele não está mais lá.

E, de repente, me falta o ar. O nó na garganta não me deixa respirar. Com facilidade, o nó começa a afrouxar, e as lágrimas brigam pra sair. E saem, e ardem sem piedade nos meus olhos cansados da solidão.
Minhas pernas me impulsionam a continuar andando, andam por vontade própria. Porque essa eu já não tenho. Compro uma barra de chocolate pra afogar as mágoas, antes que eu me afogue em lágrimas.

E volto pra casa com um livro na mão, uma ferida no pé, uma aperto no coração e uma saudade corrosiva. Uma saudade que me agarra a cada despedida. Uma saudade que revisita suas mãos macias brincando com as minhas, o roçar da minha bochecha na sua barba mal feita, sua voz suave, os olhos distantes de quem não presta atenção em uma palavra do que eu digo, suas falsas despedidas que só servem de pretexto pra me envolver em seus braços.
Mas ele não está aqui, agora.
Só me resta me agarrar aos meus sonhos e às minhas lembranças e tentar sobreviver a mais um dia.
Ou a vários.

Ou à eternidade que é não ter as mãos naquele rosto moreno...



Vanêssa Aulette.

domingo, 11 de setembro de 2011

Tudo Tem o Seu Tempo



"Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito
debaixo do céu." (Eclesiastes 3.1)

Há tempo de estar calado, e tempo de falar. Há momentos em que mesmo de boca fechada a mente grita. Minhas ideias mais brilhantes surgiram na serenidade dos meus pensamentos. Só ssim se consegue ouvir claramente. E aceitar.

O tempo é mais Hardcore do que se imagina. Às vezes é usado como antídoto para um relacionamento mal resolvido. Mas às vezes o tempo não cura nem um pouco. Apenas permanece parado enquanto duas almas se apaixonam ou deixam de amar de novo. Às vezes você até encontra a pessoa certa, mas provavelmente vocês vão estar em tempos diferentes. Você já se entregou de corpo e alma ao amor e se quebrou em cacos, mas superou as muitas perdas, espanou o medo pra debaixo do tapete, está pronta pra tentar de novo. Ele deve ter amado muito, mas algo deu errado e tudo foi em vão. Hoje, ele se bloqueia. Ele teme.

Ficar com alguém é muito uma questão de sorte. Tem que estar no mesmo tempo, na mesma sintonia, na mesma vontade. Tem que estar embrulhado pra presente e pronto pra entrega. Vale esperar? Deve valer. Vamos pensar que é apenas uma questão de tempo e circunstância. Às vezes você tem que guardar o que sente até chegar a hora certa. É como guardar moedas num cofrinho para comprar uma bicicleta.

Até comprar a bicicleta é preciso muito mais do que ser forte. É necessário dosar, saber a hora certa de baixar a guarda. Se render ao amor. Ser surpreendido fazendo planos. Deixar-se ser menino, ser sensível, ser bobo. Até que venha a certeza. Quando você a tem, você confia, você acredita, você dá uma chance, você aposta tudo o que tem sem se preocupar com as consequências.

Enquanto o tempo certo não chega só mostramos parte do sentimento. A outra parte só observa, fica no bolso pra quando solicitada.
Já plantei. É tempo de se preparar para a colheita, na espera de prosseguir com o que foi interrompido. Recomeçar é sempre bom e faz bem. Tem gosto de fruta tirada do pé, fresquinha. É reconfortante.

"Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia..."
Temos a chance de fazer tudo diferente, e devemos agarrá-la com todas as forças. A vida é breve. Talvez devêssemos ser gratos pelo tempo que poderemos passar juntos, e parar de nos apegar ao que poderia ter sido.

Não se deixa escapar aquilo que é verdadeiro.

Vale à pena pagar pra ver o amor acontecer de novo.
Sempre.


Vanêssa Aulette

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Chazinho Com Biscoitos




"O amigo ama em todos os momentos; é um irmão na adversidade" (Provérbios
17.17)


Falar em amizade é fácil. Difícil é ter alguém em quem confiar de verdade. Eu tenho.
Meu melhor amigo nunca me pediu um texto. Talvez seja por isso que eu escrevo, pela espontaneidade. Ele sabe deixar que as coisas aconteçam a seu tempo. Meu melhor amigo é ele: Wladimir Martins. Faz aniversário dia 29 de Julho. Hoje.
Costumamos dizer que somos amigos virtuais. Isso mesmo, nossa amizade nasceu e cresceu em longas conversas no MSN e pouco contato no mundo real. Mal conseguimos conversar olho no olho. Até mesmo pelo telefone persiste o estranhamento. Nós não acostumamos a retina aos olhos, os tímpanos à voz, a mão à pele. As letras são o que me consolam. Sua caligrafia apressada é o mais próximo dele que eu consigo chegar sem o rubor na face.
Às vezes me pego tentando entender como aconteceu. De uma hora pra outra já éramos grandes amigos. Simplesmente. O mais próximo que cheguei de desvendar esse mistério foi dar créditos ao tempo. Sim, o tempo que dedicamos um ao outro. O segredo da amizade é esse: dedicação. Ele sempre esteve ao meu lado, mesmo à distância. Horas ao pé do computador tentando encontrar uma solução para algo banal. Não importa o que, nem a solução. O que importa é a cumplicidade. É quebrar a cabeça, mesmo que não venha solução.
Ele me deu um ombro. Na verdade, os dois. Ou melhor, vários. Já perdi a conta de quantas lágrimas ele me ajudou a enxugar. Nós perdemos amores e nos ajudamos a regenerar a alma juntos. Com ele eu compartilho tudo. Nós compartilhamos. Histórias cômicas e trágicas, peculiaridades, inseguranças, teses. Wladimir me conhece mais do que minhas emoções se sabem. Ele me aproximou de Deus. Esse é o meu conforto: saber que tenho em quem confiar. E confiar mais. Uma confiança que transborda. Ele não me deixa desistir de mim.
Wladimir sempre me apoia.
Mentira, às vezes ele discorda totalmente e defende sua ideia de maneira sutil. Mas é isso que faz a diferença, nossas antíteses se completam. Nós criamos, modificamos e desenvolvemos tantas teses que poderíamos escrever um livro com elas. Ele me inspirou a escrever um poema e a testar a eficiência dos Correios, pela primeira vez.
Somos generosos nos elogios. Usamos da implicância para demonstrar afeto. Temos uma admiração mútua. E um adjetivo predileto: Romântico. Temos um mundo imaginário só nosso. Nele, Wladimir me leva para tomar chazinho com biscoitos, brincar no parquinho, ou dançar em cima do telhado. Cultivamos juntos um jardim de rosas vermelhas.
Já perdi a conta de quantas vezes lhe mandei sms no meio da madrugada simplesmente por estar sem sono. Ele me ajuda a tornar o ócio criativo.
É o rapaz mais inteligente que eu conheço. Tem talento pra música. Aprendeu sozinho a tocar flauta transversal e violão. Ainda fico impaciente com seu jeito passivo-agressivo. Wladimir sabe rebater minha impaciência com destreza. Ele usa aparelho e briga com o sorriso, quando esse quer desabrochar. Se permite, apenas, o sorriso da Monalisa. Ele me fez comer pão com bolo. Tem uma tara por perfumes femininos e biscoitos com recheio. Adora meus salgadinhos de queijo. Me vence no xadrez, mas não na sinuca.
Ser amigo é saber a fundo o que o outro gosta ou deixa de gostar. É conhecer mais o silêncio do que uma multidão de palavras. Criar adjetivos e piadas internas que só eles saberão. Retrucar a admiração com mais admiração. Puxar o verbo quando for necessário.
Somos amigos a 2 anos, e ele não desistiu de mim. Nossa amizade cresce a cada dia. Mesmo. Somos leais. Fiéis. Mais do que em qualquer relação amorosa.
Um dia ainda tomaremos aquele chazinho com biscoitos.


"Eu sou o diário dela, e ela é meu diário." (Wladimir Martins)
Parabéns pelo seu dia, criança de 7 aninhos que estuda em colégio especial!
Uma rosa romântica da sua ratinha,

Titia.

domingo, 24 de julho de 2011

Beijo de verdade

Sempre me perguntei como seria meu primeiro beijo de verdade. De verdade, se me entendes. Pode esquecer os selinhos na mamãe, na titia, no irmão. Esqueça os selinhos. Eu falo do beijo de cinema. Do cinema que plantou botões de rosa e pintou arco-íris na minha massa cinzenta.

Imaginava meu primeiro beijo no baile de formatura, daquelas formaturas à fantasia, de filme americano. Eu seria uma princesa, e talvez fosse coroada a rainha do baile depois de tudo. Às vezes, minha imaginação não ia muito longe. Às vezes, meu pé só levantava enquanto meu amado enlaçava minha cintura. Estaria tocando uma música romântica ao fundo. Uma música para eu chamar de "nossa".

Não conseguia decidir ao certo o que faria com minhas mãos. Talvez segurassem outras mãos. Ou talvez se perdessem n'outros cabelos. Mas o melhor de todo esse devaneio, aquilo sobre o qual eu não tinha dúvidas de como gostaria que fosse, seriam duas coisas.

A primeira: Ele não precisaria ser muito alto, mas o bastante para me levar à ponta dos pés. Talvez seja o desejo íntimo de todos, o de superar obstáculos por aquilo que ansiamos com todas as nossas forças, mesmo que fosse alguns centímetros do chão.

A segunda: Seria com amor (correspondido). Simplesmente. Nunca fui do tipo maria-vai-com-as-outras. Nunca me deixei levar por aquelas que me zombavam por ser o que chamam de "BV". Pra falar a verdade, eu sentia um orgulho íntimo nisso, uma afeição com o intocável. Um estranho nunca teria meu beijo, não com minha vontade. Seria com alguém que significasse tudo. Seria quando eu sentisse aquela sensação de que não haveria nada igual.

Sempre me perguntei como acontecia um beijo. Será que vem do instinto? Será que já nascemos com o conhecimento dessa arte? Por via das dúvidas, não quis correr o risco de não estar pronta. Odeio quando não tenho a palavra certa, a atitude prudente, o conselho tão necessário. Odeio simplesmente não saber como agir. Com o primeiro beijo não seria diferente. Quem nunca teve um caso de amor com a própria mão, que atire a primeira pedra.

O que mais me perturbava disso tudo era o pós-beijo. O que se fala depois do primeiro beijo? Como eu disse, odeio não estar pronta. E isso eu não podia controlar, sequer conseguia pensar em um diálogo coerente com o espelho. Nos filmes tudo é mais fácil. Sempre.

Meu primeiro beijo aconteceu, mas não foi como eu imaginei.
Não teve baile. Minha perna não levantou. Não tinha música romântica ao fundo. O garoto era mais baixo do que eu. Pouco depois descobri que ele não me amava realmente. Que ironia, não? Eu não sabia como me sentiria durante meu primeiro beijo de verdade, não se sabe tanta coisa aos 14 anos de idade. Só tinha a certeza de que não deveria me sentir daquele jeito. Eu estava tão preocupada com a técnica , com o "fazer certo", com o que o outro iria achar, que acabei esquecendo de sentir aquilo. A famosa "magia do primeiro beijo". Isso eu só fui sentir pouco mais de um ano depois.

O medo nos impede de amarmos plenamente.

Se seu primeiro beijo ocorreu às mil e uma maravilhas, parabéns, você é uma pessoa de sorte.
Porque nem sempre seu primeiro beijo será seu primeiro beijo DE VERDADE.

Não crie expectativas. Não planeje. Quando você planeja, nem sempre as coisas saem como você desejaria que fossem, nem da forma como realmente deveriam ser. É um fiasco. Deixe acontecer.

Quando você der seu primeiro beijo de verdade você vai entender. Porque quando os lábios se tocarem você vai sentir no corpo todo. Um beijo tão quente e profundo que você não vai querer parar pra respirar. Você desejará que, pelo resto da vida, seus beijos sejam só dele(a), de mais ninguém. As borboletas do seu estômago visitarão as borboletas do estômago do outro. Ambos os corpos estarão tão inundados em uma neblina, que você estará em um baile, se quiser, ou numa praia deserta, sob a luz da lua, se quiser. Isso não vai importar. Porque ambos estarão tão desligados do mundo que não lembrarão nem o próprio nome. Você sairá de órbita, será só você, ele(a) e aquele momento. É quando você está tão inebriado com a respiração do outro que tampouco importa a música romântica estar tocando ou não. Você nem vai lembrar das próprias pernas. Você vai perder o chão. Você não vai precisar superar os obstáculos, o outro superará por você. Quando os lábios se soltarem, enfim, as palavras vão sair naturalmente. Será diferente de tudo o que você imaginou um dia. Mais tarde você vai tentar recordar a posição exata dos braços que te envolveram, mas você não vai lembrar dessa vez.
Nem da próxima.

Porque amar é sair do próprio corpo para tentar o do outro.

Quando você sentir isso, parabéns, você deu seu primeiro beijo de verdade.
Você terá a sensação de que não haverá nada igual.

Porque quando achar a pessoa certa, seu primeiro beijo vai ser TUDO.


Vanêssa Aulette

sábado, 16 de julho de 2011

Simplesmente esquecemos

Deixe o peso rolar dos seus ombros. Você não sabe que a pior parte já passou? Nós esquecemos. Sim, nós simplesmente esquecemos. A conversa pendente não precisou ser terminada para ser entendida. Os olhos falaram por nós dois.

Pra onde foram as cobranças e a mágoa? E a culpa, então, em quem jogamos? Já nem lembro da culpa. Dos espinhos. Eles simplesmente saíram com a mesma rapidez com que entraram. Sem piedade. Sem olhar pra trás para não dar espaço para a dúvida.
Nós esquecemos de encurtar o abraço, de negar sorrisos, de manter metros de distância, da indiferença. Dos verbos definitivos e quase seguros de sí decorados no espelho. Nós esquecemos de fingir.
Quando esquecemos de demonstrar a raiva é porque nós nunca a sentimos, realmente.
Em vez disso, nós demos lugar às provocações, às ironias, ao afago na franja, ao rubor da face, à proximidade desnecessária (mais necessária do que você imagina), ao abraço e aperto de mão infindáveis. Nós demos lugar à nostalgia. À mesma lua cheia de um fim de tarde de quinta-feira.

É como quando comemos um bolo. Começamos pelo miolo, pelo homogêo. Por fim, saboreamos a cobertura com suas caldas e granulados. O mais prazeroso fica por último. Você me deixou por último. Eu sei.

Nós falhamos no plano. O plano falho mais recompensador de todos. Porque se toda recompensa fosse essa, desejaria passar a eternidade falhando. E você não poderia me culpar por isso porque também falharia. Você me entenderia. Sempre.

Todo o tempo nunca seria longo o suficiente ao seu lado. Já sinto falta do seu cheiro, meu amigo.

Mas não diga nada, não agora. Deixe o tempo falar por nós dois.

Porque os espinhos vão embora, mas são essas pequenas maravilhas que permanecem.


Vanêssa Aulette

domingo, 3 de julho de 2011

Crianças do parquinho

Depois de cuidadosa consideração e muitas noites sem sono você descobre que não há nenhuma coisa tal qual o crescimento. Nós saímos do casulo, nós mudamos. Nós aprendemos com os nossos erros. (Nada mais eficaz do que aprender com os próprios erros). Olhamos com olhos sábios para quem fomos. Muitas vezes nos envergonhamos desse passado, mas é normal. Que mal tem em cheirar o próprio pum no sofá aos 9 anos de idade? É fase.

Cada dia é um aprendizado. Saimos com o guarda-chuva no dia nublado. Aprendemos o macete para se abrir vidros de palmito. Assimilamos a posição estratégica do absorvente na calçinha. Passamos a ser o porquinho que constrói a casa com cimento e tijolos. Nós pegamos o jeito.
Nós nos acostumamos com a dor e a acolhemos como uma velha amiga. Porque ela sempre bate à nossa porta, embora por diferentes motivos, ou talvez os mesmos motivos com uma nova roupagem. Nós nos tornamos íntimos da dor, aprendemos a conviver.

Maturidade é segurar a dor no colo.

Aprendemos, de alguma forma, a anestesiar os sentimentos. Você namora aquele par de sapatos da vitrine, mas consegue refrear o impulso de amaldiçoar a vida por não poder comprá-lo no momento. A paciência chega com o tempo. É como um copo que aumenta de volume com o passar dos anos. Pinga, pinga, inunda até a borda, mas não transborda.

Você não se acostuma com as perdas, você se conforma. Porque, de uma forma ou de outra, as coisas, pessoas, sentimentos, momentos que perdemos acabam sendo substituídos por outras coisas, pessoas, sentimentos e momentos. Tudo a seu tempo.

Maturidade é o olhar sereno de uma idosa.

Se você tem sorte, cura as feridas superficiais. Mas as inseguranças básicas, os pequenos medos e todas aquelas velhas e grandes feridas crescem conosco. Temos que lavar essas feridas e esperar um tempo... pra que se curem.

Mas, apesar de todo esse suposto controle da situação, o plano falha. É como a água que escorre por entre os dedos. De repente, não chove. O vidro racha. O sangue vaza. Esquecemos de esquentar a lareira. Você se pergunta "o que deu errado?". O manual de instruções se torna inútil e você sente o desejo de mandar o fabricante às favas. Mas cada caso é um caso. Precisamos permitir que o plano de nossas vidas assuma viradas inesperadas. Que a direção dos projetos que pensávamos ser estáveis sejam instáveis. Isso é entender o tempo.

Maturidade é fazer o bolo sem a receita.

Nós ficamos grandes, nós ficamos altos, nós envelhecemos, mas na maior parte do tempo somos um grupo de crianças correndo em volta do parque tentando desesperadamente ficar em forma. Quando tudo parece equilibrado, manso, intocável, a máscara cai e tomamos decisões desesperadas e/ou infantis. A nostalgia vence. Sentamos no chão da fila do cinema. Dançamos na chuva. Raspamos o pote de iogurte com o dedo. Guerriamos com bolinhas de catota. Dormimos abraçados com nossos velhos ursos. Passamos um trote mudos só para ouvir uma determinada voz. Nós quebramos as regras que fazemos para nós mesmos. Nós temos acesso de raiva quando as coisas não vão como queremos. Agimos como crianças cheias de gostos e birrentas de supermercado. Nós sussurramos segredos bobos pros nossos amigos. Nós procuramos conforto onde nós podemos achar. E nós desejamos ferrenhamente, mesmo indo contra toda a lógica, contra toda a experiência. Como crianças, nunca desistimos da esperança, dos sonhos. Os sonhos são como parte de nós. Viver sem eles é como guardar o braço na gaveta, esconder os olhos no porão, estender a perna no varal.

É possível crescer, mas eu nunca conheci alguém que realmente tenha feito isso.
As lições não se fixam de uma hora pra a outra. É um evento, grande ou pequeno, alguma coisa que muda a gente. Idealmente nos dá esperança, uma nova forma de viver a vida e de olhar o mundo. Desfazemo-nos de velhos hábitos, memórias antigas. Apertamos o botão F5 e, de repente, não somos os mesmos.
Mas no fundo, no fundo, sabemos que existem algumas coisas que valem àpena serem mantidas.

Porque ser maduro é permitir-se ser a borboleta
Sem deixar de revisitar o casulo.


Vanêssa Aulette