segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Caso proibido


Amo um rapaz
Proibida de amar,
Prisioneira dos meus pais
Prostrei-me a chorar

Como posso estar errada
Depois do que se sucedeu?
Tuas mãos na minha cintura
Meus lábios nos teus

Um caso proibido
Um desconsolo fatal
Um coração partido
A propensão para o mal

Uma ideia fugaz
Um arriscado plano
A busca pela paz
O juntar dos panos

A noite calada
A rua vazia
A fuga desesperada
O caminho da alegria

Eu sou do meu amado
Meu amado é meu
Retórica dos apaixonados
Julieta e Romeu

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O sonho



Te encontro, depois de tanto tempo, sentado no vagão do trem. Aproximo-me e vejo que não sou a única a estar surpresa. É um misto de sensações que não sei ao certo a que me domina no momento. Como quisesse falar algo para disfarçar esse meu estado, chamo algumas palavras cá dentro e elas acudem-me de pronto e enchem-me a boca, mas recolhem-se ao coração. O máximo que pude dizer naquele momento foi um sussurrado "oi".
Sento ao teu lado e por mais assustados que estejamos conseguimos atar um diálogo. Falamos do clima, do natal, da vida, dos pássaros, mas nada tocante ao passado. No meio da conversa acabo descobrindo que nos encontraremos ainda mais vezes. Nossos caminhos estavam se cruzando novamente.
Descemos do trem e ficamos a nos olhar. A nostalgia tomando conta daquela situação. Como quisesse falar algo, chamo algumas palavras; elas me enchem a boca e, novamente, se recolhem no meu coração. Num súbito de coragem levanto os dedos trêmulos e acaricio o teu rosto depois de tanto tempo. Não o fiz depressa, mas devagar, devagarinho, saboreando pelo tato aquela mandíbula forte, que era parte tua. Sinto que naquele gesto e naquele olhar pudestes ouvir as palavras mais doces que não conseguiram ser ditas.
Como que te sentindo estremecer, aproximo-me hesitante da tua boca. Te fito os olhos à procura de alguma relutância. Mas tu estás petrificado à espera do próximo passo. Já não consigo diferenciar minha respiração da tua. Fecho os olhos e, assim como o orvalho, mais uma vez cresto levemente essas rosas que são teus lábios...
E então...
O abrir dos olhos,
Um quarto escuro,
E tudo não passava de um sonho...



Vanêssa Aulette

Como folhas...

Me pego pensando em nosso caso confuso, incerto. Passo horas tentando entender em que ponto tudo mudou pra você. Passo dias esperando uma carta ou um simples bilhete com um mínimo garrancho seu que mantenha acesa essa chama. Mas as cartas não chegam...
Passo os dias esperando pelas noites, onde poderei vê-lo e senti-lo como costumava sentir... costumava. Tento transcender e imaginar um final feliz no meio de todo esse rebuliço, assim como nos contos de fadas. Tento buscar em mim um lugar em que eu ache seguro confiar meus sentimentos sem que eu corra o risco de perdê-los lentamente...
Devaneando sinto que estamos na mesma zona de alcance, contudo sua frequência está bem distante da minha. Continuo tentando ler mentalmente as cartas que você não me escreveu e ouvir todas aquelas doces palavras que você não me disse. Continuo tateando no escuro com a ligeira esperança de encontrar a agulha que se perdeu do palheiro. Mas a agulha simplesmente sumiu. A pouco encontro jogada no chão a chave da minha cela cardíaca largada como que sem valor, sem interesse. Já não espero pelo carcereiro; ele se desobrigou de seus afazeres, de guardar o bem mais precioso que eu pude lhe dar: o meu coração...
E assim, largado, sem cuidado, sem atenção, esse órgão vivo vai desfalecendo, assim como eu. Olho nossas fotos, fito seu sorriso na esperança de que estejas sorrindo pra mim. Minhas pálpebras pesadas caem enquanto esse teu sorriso que já não é meu fica em meus sonhos profundos, num passado muito, muito distante. A areia do tempo desce lentamente e vai enterrando os mais entranháveis afetos que um dia eu pude sentir...
Nado a esmo na água que brota incessantemente dos meus olhos sem um motivo ao certo. Já não tenho motivos para tentar entender esse mar de incertezas. Aos poucos vou caindo em mim e chegando à conclusão de que nado sozinha...
Aos poucos esse meu coração morre lentamente, perdendo as esperanças como folhas no outono, até que um dia nada resta, nenhuma esperança, não resta NADA...


Vanêssa Aulette

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A carta



Deitada na varanda sob a luz da opulenta lua cheia, me encontro com um bobo sorriso no rosto. Esse é o efeito que você me causa toda vez que releio sua carta. Ela me tira do mundo real e me transporta para o seu mundo, suas palavras, seu sentimento. Passo de leve os dedos sobre sua irregular caligrafia e rio sozinha ao ver que é SUA. Imagino tua mão segurando aquele inanimado objeto, imagino tua mão segurando a minha mão. Te imagino parando em momentos de hesitação.
Te sinto falar tudo aquilo ao meu ouvido, te sinto comigo. Nas suas despedidas imagino suas mãos cuidadosas envolvendo minha cintura mimosa em um terno abraço. Esse é o efeito das suas doces palavras. Sempre que a angustiante incerteza bate, me embriago com esse cálice de recordações e lembro-me que não luto em vão, mas por um bem maior do que qualquer ouro do mundo... VOCÊ.
Paro um segundo em meus devaneios e reparo na nossa estrela se destacando no luar. Sim, um dia teremos novamente um ao outro, "é só não deixar a luz parar de brilhar".



Vanêssa Aulette

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Toque de recolher

Sentada na praça vejo a chuva cair por sobre minha pele, mas já não a sinto. Ela sem mistura com a água que brota dos meus olhos incessantemente. Já não sei a diferença entre lágrimas e chuva.
Ouço ao longe uma sinfonia melancólica a tocar. Talvez seja um disciplinado aprendiz de piano angustiado pela palmatória que levara mais cedo... ou talvez essa melodia seja fruto da minha mente e apenas reflita o estado sorumbático no qual me encontro. Já não sei distinguir fantasia de realidade. Já não sei em que ponto deixo de ser eu para ser uma máquina programada, aparentemente sem coração. Mas se até máquinas precisam de um motivo para existir, porque comigo seria diferente?
Não tenho eu mais liberdade do que um prisioneiro perpétuo. Procuro à minha volta algo em que eu possa me agarrar, algo que possa conter a chuva que brota dos meus olhos, mas não tenho tempo para pensar. Soa o toque de recolher, tenho que voltar logo para a minha prisão de sorrisos forçados e de algemas invisíveis...


Vanêssa Aulette

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Lembranças


Impressiono-me com a imprevisibilidade do tempo
Ao olhar para trás e ver o quanto tudo era tão diferente
Simplesmente costumávamos andar de mãos dadas contra o vento
Enquanto trocávamos palavras de afeto a todo momento
Quando sentados sob a luz do luar
Costumávamos fazer planos futuros
Enquanto meus olhos buscavam e fugiam do teu olhar
E vislumbrava-mos as estrelas que se destacavam no escuro
Conseguia te ver em todo lugar
Ao longo do dia via muitos de você passarem
À noite fechava os olhos para sonhar contigo
Sentia nas mãos teu belo rosto, sentia alívio
Pois o medo que eu tinha de perder-te chegava sorrateiro nos solitários momentos
Pois em ti encontrava refúgio, abrigo
Hoje olho para o caminho pelo qual tivemos que seguir
Sinto um aperto no coração quando lembro que você não estará mais ali
Me esperando para segurar minhas mãos
Me olhar nos olhos e me fazer sorrir...
Pois o destino, com tamanha vilania,
Te levou assim como você veio,
Mas deixou lembranças de uma vida
Que para sempre serão lembradas, jamais esquecidas...

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A canção


Chegada a hora tão esperada
Seguro com força suas mãos suadas
Como quem procura um chão,
E ao mesmo tempo serve de morada, inspiração.
Te sinto ofegar de leve a respiração
Medir as palavras em matéria de efeito
Como que expulsando mentalmente os defeitos
A fim de tornar o pedido uma canção
E apesar de ser, para quem o ouve,
Tão claro quanto um lago no verão,
Dissimulo em minha mente uma confusão
Tão somente para a canção ouvir novamente
E recordar sua voz mesmo após teu partir
Por isso com ânimo tu ouves minha confirmação
Tendo a lua a sorrir, maravilhada
De ter se consumado toda a inquietação
Sendo testemunha, o cintilante astro,
Do toque, do abraço, do beijo, da canção...